Leishmaniose alastra por irresponsabilidade

Prof.WilsonMayrink.jpgPor Daniel Lima - www.anovademocracia.com.br  10/10/2006 às 11:03
O criador da vacina contra a Leishmaniose, doença causada por protozoários do gênero leishmânia e que afecta 350 milhões de pessoas em todo o mundo, professor Wilson Mayrink, luta há mais de 30 anos para que o Ministério da Saúde a produza e inclua no calendário brasileiro de imunização. Enquanto isso não ocorre, a doença se espraia, fazendo a festa da indústria farmacêutica alienígena.

Leishmaniose se alastra por irresponsabilidade

As pesquisas do professor Mayrink que em 1963 organizou o Laboratório de Leishmaniose do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), resultaram no desenvolvimento da Leishvacin, a única vacina existente no mundo de comprovada eficácia contra esse protozoário. Só que o descaso das sucessivas gerências para com a saúde impede a sua produção em larga escala.

Um pesquisador do Instituto Bacteriológico de São Paulo, o professor Salles Gomes, lançou em 1939 a ideia de se produzir uma vacina contra a leishmaniose. A primeira experiência em campo foi realizada um ano depois, em Presidente Prudente, pelo parasitologista Samuel Pessoa, da Secretaria de Saúde de São Paulo, e a partir desses estudos, Mayrink e sua equipe desenvolveram a vacina.

No Brasil, só na região Sul os casos são de pequena monta. As áreas de maior ocorrência localizam-se no Norte, Nordeste e parte Norte de Minas Gerais, principalmente nas regiões agrícolas, favelas e localidades negligenciadas de saneamento básico. Somente no Brasil, estima-se o aparecimento de 25 mil novos casos por ano. Em Minas Gerais, mais de 400 municípios já detectaram a presença da doença, que contamina 12 milhões de pessoas em 88 outros países semicolonizados.

Já erradicada nos países de governos imperialistas, a Leishmaniose tem origem silvestre. É transmitida pelo lutzomya (birigüi ou mosquito-palha), inseto com especificidade biológica para transmitir o parasita ao homem, quando ele invade a floresta e destrói o habitat natural do mosquito. Além disso, o cachorro, animal domesticado pelo homem, é o principal hospedeiro do protozoário transmissor da Leishmaniose braziliensis.

Uma simples picada já é o suficiente para transmitir a doença que começa sua manifestação através de vários sintomas como febre contínua, perda de apetite, crescimento exagerado do fígado, lesões na pele e anemia, podendo até mesmo levar à morte do homem e de animais domésticos.

A doença se apresenta de modo diverso, tanto quanto à manifestação quanto ao grau de periculosidade. A do tipo tegumentar, mais comum em Minas Gerais, provoca a decomposição de parte dos tecidos do corpo e a deformação da pessoa. As feridas migram da região infectada para outras partes do corpo. Há também a mucotegumentar, que ataca as mucosas nasal e faringiana, com casos extremos de total deformação do rosto; a visceral, que atinge baço, fígado e medula óssea; e a difusa, que ataca a pele, causando um tipo diferente de lesão, até bem pouco tempo tida como incurável, mas combatida com sucesso pelo tratamento desenvolvido por Mayrink, usando a vacina em combinação com imunoquimioterapia.

A vacina foi reconhecida até pela revista do Programa de Pesquisa de Doenças Tropicais da OMS, mas apesar disto Mayrink tem que arcar com recursos próprios para o desenvolvimento de seu trabalho, com destaque para a aplicação, com apoio da UFMG, Fapemig, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais e UFOP, Universidade Federal de Ouro Preto

Como a vacina desenvolvida por Mayrink não tem contra-indicações, ela é a única maneira de tratar pacientes que não podem receber o antimônio. De acordo com o professor, o resultado final é de praticamente 100% de cura e, quando antimônio e vacina são usados juntos, além da diminuição da exposição ao antimônio, o tempo gasto é menor do que quando se usa só o antimônio. Já quando somente a vacina é usada no tratamento, o processo de cura é mais lento, pois depende do estado imunológico da pessoa.

A vacina é capaz de levar à cura da lesão e também pode produzir um estado de resistência à doença - observa Mayrink, sem compreender a atitude do governo, pela qual quem paga é o povo trabalhador do campo sempre mais empobrecido.

No Brasil não se permite ter saúde pública, não há competência, desabafa Mayrink.
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A Nova Democracia - Ano 3, n.25, Julho de 2005

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publicado por LauraBM às 23:52